segunda-feira, 17 de março de 2014

Ambiente de Refúgio

“As pessoas precisam de um lugar onde possam ser amadas e cuidadas, onde possam ser abertas e vulneráveis”

Poucos meses atrás, visitei um pequeno grupo frequentado por servidores da Divisão Sul-Americana. No momento dedicado ao testemunho, ouvi um dos membros daquele grupo dizer, a propósito do aniversário que ele comemorava naquele dia: “Normalmente, o pessoal do meu coral sai para comemorar os aniversários e alguns me telefonaram para combinar a saída. Porém, eu disse a eles que já tinha compromisso com meu pequeno grupo. Quando eu mais precisei, vocês me sustentaram com suas orações e amizade. Agora, em um momento de alegria e bênçãos, fiz questão de vir aqui para comemorarmos juntos.”

Percebi que aquele pequeno grupo realmente estava cumprindo seu papel de acolher com carinho e amizade, e isso tinha feito diferença.

“Os seres humanos são basicamente sociáveis”, diz Russel Burrill, acrescentando que “não fomos feitos para viver sozinhos, mas em comunidade. Essa necessidade de viver em comunidade foi criada por Deus e é inerente ao nosso ser.” 1 Na criação, Deus disse: “Não é bom que o homem esteja só” (Gn 2:18). E Jesus Cristo ressaltou: “Nisto conhecerão todos que sois Meus discípulos: se tiverdes amor uns aos outros” (Jo 13:35).

Interação indispensável
A expressão “uns aos outros” é bastante utilizada por Paulo e é repetida 75 vezes na Bíblia, 2 servindo para descrever a forma de relacionamento que Deus espera ser desenvolvido por Sua igreja. Por exemplo, os irmãos devem ser bondosos e compassivos uns para com os outros (Ef 4:32), encorajar os outros (Hb 3:13), ser benignos e aconselhar uns aos outros (Rm 15:14), orar uns pelos outros (Tg 5:16), levar as cargas uns dos outros (Gl 6:2), amar uns aos outros (Jo 13:35), não falar mal uns dos outros (Tg 4:11).

Novamente citando Burril, “neste sentido, é impossível ser cristão e viver em isolamento… não há cristianismo fora da comunidade. Envolvimento na comunidade significa viver em mútua dependência de outros cristãos”3

Geralmente, não gostamos de ser dependentes; aliás, vivemos em uma sociedade egoísta, em que cada um deseja viver a vida a seu próprio modo. Contudo, ninguém é feliz vivendo dessa maneira. “Deus colocou no coração humano o desejo de conhecer e ser conhecido, amar e ser amado. A humanidade precisa desesperadamente de comunidade hoje. As pessoas precisam de um lugar onde possam ser amadas e cuidadas, onde possam ser abertas e vulneráveis, sem ser julgadas”.4

O ambiente mais propício para se viver satisfatoriamente esse tipo de relacionamento é o pequeno grupo. Embora as várias reuniões programadas pela igreja sejam essenciais para o crescimento cristão, elas não podem substituir a reunião de pequeno grupo.

Reuniões sociais
Por sua informalidade e natureza, o encontro do pequeno grupo provê condições adequadas para desenvolver amizade, cuidado mútuo e prestação de contas. João Wesley, o pai do metodismo, chegou a essa mesma conclusão. Ele descobriu que a melhor forma de cuidar e consolidar a fé das pessoas que eram atraídas às suas reuniões evangelísticas era através das chamadas classes, uma espécie de pequeno grupo que ele passou a desenvolver. Wesley levava tão a sério a importância da participação de seus conversos nessas classes, que não aceitava no metodismo quem recusasse tal prática.5

O adventismo primitivo também se desenvolveu colocando as chamadas “reuniões sociais”, pequenos grupos da época, no centro de suas atividades.6 Nossos pioneiros “viam que o adventismo não devia se preocupar apenas com o desenvolvimento mental do crente, mas também com a natureza emocional, ou social… Eles consideravam o desenvolvimento harmonioso das faculdades físicas, mentais, sociais e espirituais como a essência da verdadeira educação.”7 Portanto, por meio das reuniões sociais, eles cuidavam do desenvolvimento relacional dos membros, e procuravam mantê-los espiritualmente responsáveis. Ali, as pessoas compartilhavam a vida cristã. Era o lugar em que os membros mais amadurecidos e os neófitos recebiam apoio e discipulado.

Descrevendo o conteúdo dessas reuniões, Ellen G. White escreveu: “Reunimo-nos para mutuamente nos edificarmos com o intercâmbio de ideias e sentimentos; para adquirirmos poder, luz e ânimo ao nos familiarizarmos com as esperanças e desejos uns dos outros; e ao orarmos com fé, sinceridade e fervor receberemos refrigério e vigor da Fonte de poder. Essas reuniões devem, pois, ser ocasiões sumamente preciosas e tornar-se atraentes a todos os que apreciem as coisas religiosas.”8

“Para os pioneiros do adventismo, as reuniões sociais eram consideradas parte regular da vida da igreja.”9 “Frequentá-las assiduamente era considerado dever para os crentes.”10 “Elas eram realizadas em nível de igreja local, nas reuniões campais e mesmo nas sessões da Associação Geral, como parte da agenda regular devocional e de negócios.”11 Ellen White chegou a dizer que o cristão é alguém ativo nas reuniões sociais: “O cristão é uma pessoa semelhante a Cristo, ativa nos serviços de Deus e presente nas reuniões sociais e cuja presença animará também a outros.”12 Ela ainda aconselhou que os pastores novos deviam ser ensinados a conduzir reuniões sociais.13

Treino necessário
Diante disso, não podemos deixar em segundo plano o movimento de pequenos grupos entre nós, hoje. Temos diante de Deus a responsabilidade de fortalecê-los e multiplicá-los, a fim de possibilitarmos aos membros de nossas igrejas o ambiente de amizade e acolhimento de que necessitam. Assim como os primeiros adventistas, devemos manter equilíbrio entre o racional (cognitivo) e o relacional.

Todavia, não podemos nos esquecer de que o simples fato de reunirmos as pessoas em pequenos grupos não é suficiente para ter o ambiente pronto para desenvolver a amizade conforme necessitamos. Precisamos treinar líderes e investir na criação de grupos com essa ênfase.

Para que um pequeno grupo atenda as necessidades de amizade e companheirismo, são necessárias quatro coisas, conforme enumeramos em seguida:

1. Disposição para aceitar as pessoas como são, sem julgamento nem condenação. As pessoas só irão se abrir, quando se sentirem seguras e aceitas.

2. Os membros precisam ser confidentes. O que for falado no grupo não pode sair dali.

3. O estudo da Bíblia deve ser aplicativo. O objetivo é atender as necessidades das pessoas com a mensagem bíblica. Discussão doutrinária é feita nas classes bíblicas, nos sermões, estudos bíblicos e lição da Escola Sabatina.

4. Ação intencional de cuidado mútuo entre os membros do grupo. É a prática do princípio “uns aos outros”, visitação, oração intercessora, comemoração de datas especiais e atendimentos das necessidades dos membros.

Oramos para que cada pequeno seja, de fato, um lugar de refúgio, um ambiente em que cada pessoa se sinta amada e acolhida. O lugar por excelência, em que se cultiva a verdadeira amizade cristã. Burrill foi ao ponto, ao falar sobre os resultados desse trabalho: “Raramente perdemos uma pessoa que se une a um pequeno grupo, por causa das pontes relacionais que são construídas”.14

Referências:
1 Russell Burrill, Como Reavivar a Igreja do Século 21, p. 25.
2 Heron Santana, Pequens Grupos, Teoria e Prática, p. 161.
3 Russell Burrill, Op. Cit., p. 30.
4 Ibid., p. 43.
5 Ibid., p. 108.
6 Russell Burrill, Revolução na Igreja, p. 126-129.
7 ___________, Como Reavivar a Igreja no Século 21, p. 126.
8 Ellen G. White, Testemunhos Para a Igreja, v.2, p. 578.
9 Russell Burrill, Como Reavivar a Igreja no Século 21, p. 118.
10 Ibid., p. 123.
11 Ibid., p. 127, 131.
12 Ellen G. White, Comentário Bíblico Adventista del Séptimo Dia, v. 7, p. 935.
13 ___________, Signs of the Times, 17/05/1883.
14 Russell Burrill, Revolução na Igreja, p. 129.


Jolivê Chaves – Diretor de Ministério Pessoal da Divisão Sul-Americana. Publicado na Revista Ministério Jan/Fev-2011.

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segunda-feira, 10 de março de 2014

Os discípulos e as Escrituras

Texto principal:
"Examinais as Escrituras, porque julgais ter nelas a vida eterna, e são elas mesmas que testificam de Mim" (Jo 5:39).

Usando um detector de metais comprado em um bazar, o inglês Terry Herbert descobriu, enterrados no campo de um fazendeiro, artefatos de prata e armamento anglo-saxão banhado a ouro. O valor monetário estimado da descoberta ultrapassou 5 milhões de dólares.

Como alguém que procura um tesouro em um campo de terra, pedras e lixo, devemos ter cuidado para não deixar que as coisas da Terra nos impeçam de alcançar o verdadeiro tesouro no alto: Jesus Cristo. Buscando riquezas eternas, fariseus e saduceus "escavaram" os antigos escritos sagrados. Ironicamente, seu mapa do tesouro, as Escrituras, tinha sido tão radicalmente mal interpretado que eles erraram completamente o alvo: Jesus.

Explícita e implicitamente, Jesus incorporou as Escrituras em Sua metodologia de discipulado. A suprema busca ao tesouro estava enraizada nos escritos proféticos, que apontavam para Ele. Assim, não encontrar Jesus significa errar o alvo. Tudo isso significa que, em última análise, todos os nossos esforços para fazer discípulos devem enfatizar Jesus e o que Ele fez por nós.

Jesus e a Bíblia
Uma vez que Jesus é o exemplo para todos os cristãos, Seu nível de comprometimento com as Escrituras se torna mais do que uma questão de interesse passageiro.

1. Leia Lucas 4:1-12 e 16-21. O que essas passagens sugerem sobre a atitude de Cristo para com a Bíblia?

A narrativa das tentações de Cristo no deserto mostra que, citando as Escrituras, Jesus repeliu todas as

sexta-feira, 7 de março de 2014

A Compaixão de Cristo

Para que se cumprisse o que fora dito por intermédio do profeta Isaías: Ele mesmo tomou as nossas enfermidades e carregou com as nossas doenças. Mateus 8:17. Nosso Senhor Jesus Cristo veio a este mundo como o infatigável servo das necessidades do homem. “Tomou as nossas enfermidades e carregou com as nossas doenças” (Mateus 8:17), a fim de poder ajudar a todas as necessidades humanas. Veio para remover o fardo de doenças, misérias e pecados. Era a sua missão restaurar inteiramente os homens.

Várias eram as circunstâncias e necessidades dos que Lhe suplicavam o auxílio, e nenhum dos que a Ele se chegavam saía desatendido. D´Ele procedia uma corrente de poder restaurador, ficando os homens física, mental e moralmente sãos.
A obra do Salvador não estava restrita a qualquer tempo ou lugar. A Sua compaixão desconhecia limites. Em tão larga escala realizara a Sua obra de curar e ensinar; que não havia na Palestina edifício vasto bastante para comportar as multidões que se Lhe aglomeravam em torno. Nas verdes encostas da Galileia, nas estradas, à beira-mar, nas sinagogas e em todo lugar a que os doentes Lhe podiam ser levados, aí se encontrava Seu hospital. Em cada cidade, cada vila por que passava, punha as mãos sobre os doentes, e os curava. Onde quer que houvesse corações prontos a receber-Lhe a mensagem, Ele os confortava com a certeza do amor de Seu Pai celestial. Todo o dia ajudava os que a Ele vinham; à tardinha atendia aos que tinham que labutar durante o dia pelo sustento da família.
Jesus carregava o terrível peso de responsabilidade da salvação dos homens. Sabia que, a menos que houvesse da parte da raça humana, decidida mudança de princípios e desígnios, tudo estaria perdido. Esse era o fardo de Sua alma, e ninguém podia avaliar o peso que sobre Ele repousava. Através da infância, juventude e varonilidade, andou sozinho.

Dia a dia enfrentava provas e tentações; dia a dia era posto em contato com o mal, e testemunhava o poder do mesmo sobre aqueles a quem buscava abençoar e salvar. Não obstante, não vacilava nem ficava desanimado.

Era sempre paciente e bem-humorado, e os aflitos O saudavam como a um mensageiro de vida e paz. Via as necessidades de homens e mulheres, crianças e jovens, e a todos dirigia o convite: “Vinde a Mim.” Mateus 11:28.

Ao passar por vilas e cidades, era como uma corrente vivificadora, difundindo vida e alegria.


Ellen G. White, Refletindo a Cristo, pág. 11.

quinta-feira, 6 de março de 2014

Discipulado por meio de Metáforas

Texto principal:
"Todas estas coisas disse Jesus às multidões por parábolas e sem parábolas nada lhes dizia; para que se cumprisse o que foi dito por intermédio do profeta: Abrirei em parábolas a Minha boca; publicarei coisas ocultas desde a criação do mundo" (Mt 13:34, 35).

O cristianismo é razoável e tem lógica. O intelecto deve ser cultivado. No entanto, o intelecto sozinho expressa de modo insuficiente toda a personalidade humana. Ao contrário dos robôs, que são programados para processar a razão e a lógica, os seres humanos são capazes de amar, sentir, sofrer, chorar, preocupar-­se, rir e imaginar. Por isso, Jesus ajustou as verdades eternas de uma forma que ia além do mero intelecto. Ele falou por intermédio de figuras concretas extraídas da vida cotidiana, a fim de alcançar as pessoas onde elas estavam. Crianças e adultos podiam entender verdades profundas transmitidas por meio de parábolas envoltas em imagens e metáforas.

Enquanto isso, conceitos complexos como justificação, justiça e santificação eram facilmente compreendidos mediante a arte do Mestre contador de histórias. Em outras palavras, conceitos que muitas vezes são difíceis de entender na linguagem comum podem ser ensinados com o auxílio de símbolos e metáforas.

Exemplos do Antigo Testamento
1. Leia 2 Samuel 12:1-7; Isaías 28:24-28; Jeremias 13:12-14 e Ezequiel 15:1-7. Como essas parábolas e alegorias ampliam nossa compreensão do relacionamento entre Deus e a humanidade? Quais objetos ou cenários utilizados por esses profetas aparecem depois nas parábolas de Cristo?

Natã contou uma parábola a fim de disfarçar o verdadeiro propósito de sua visita. Ao condenar o homem rico da parábola, Davi implicou a si mesmo na transgressão, pronunciando assim a própria sentença. Usando um artifício literário (uma parábola), Natã alcançou algo que de outra forma poderia ter produzido confronto e, talvez, até mesmo sua execução!

A história poética de Isaías provém do ambiente agrícola familiar aos seus ouvintes. Séculos mais tarde, Jesus empregaria esses mesmos cenários. A parábola de Isaías ensina sobre a misericórdia ilimitada de Deus nos tempos de punição. O capítulo 12 de Hebreus também apresenta o castigo de Deus como instrumento para a correção e não como arma para vingança. Castigos divinos refletiam Seus propósitos redentores. Eles eram suficientes para encorajar o arrependimento, reavivamento e reforma. No entanto, quando ocorria teimosia e rebelião mais amplas, havia punições maiores.

A parábola de Jeremias é uma terrível ilustração do julgamento. Sempre que os seres humanos frustram o propósito redentor de Deus, Ele finalmente os entrega às consequências de suas escolhas. Cristo também compartilhou com Seus ouvintes parábolas sobre o julgamento. Ezequiel usou um símbolo diferente para transmitir uma mensagem similar.

Por que contar histórias é uma forma tão poderosa de expressar a verdade? Quais são suas histórias favoritas, e por que você gosta delas? Comente com a classe.

Sabedoria arquitectónica
2. Leia Mateus 7:24-27. Qual é a contribuição desses versos para nossa compreensão do discipulado cristão? Por que Jesus usou esse exemplo da natureza para ensinar uma verdade tão importante?

As modernas sociedades alfabetizadas consideram a alfabetização algo garantido. No entanto, ainda hoje, existem muitas sociedades não alfabetizadas. Ao longo da história antiga, a alfabetização foi exceção e não

quarta-feira, 5 de março de 2014

Discipulado e Oração

Texto principal
"Não rogo somente por estes, mas também por aqueles que vierem a crer em Mim, por intermédio da sua palavra; a fim de que todos sejam um; e como és Tu, ó Pai, em Mim e Eu em Ti, também sejam eles em nós; para que o mundo creia que Tu Me enviaste" (Jo 17:20, 21).

Não importa o que fizermos para salvar pessoas, sejam quais forem os programas evangelísticos que criarmos, devemos orar fervorosamente por aqueles que procuramos alcançar. Isso está no centro da vida do cristão, e de modo especial na vida do cristão que deseja formar novos discípulos. Que mudanças poderosas poderiam ocorrer se a oração constante e fervorosa estivesse no centro da nossa metodologia ao buscarmos fazer e manter discípulos!

"Apeguem-se os obreiros às promessas de Deus, dizendo: 'Tu prometeste: 'Pedi e recebereis' (Jo 16:24). Eu preciso que esta pessoa se converta a Jesus Cristo.' Solicitem orações em favor das pessoas por quem vocês trabalham; apresentem-nas perante a igreja como objetos de súplica. [...]

"Escolham alguém, e alguém mais, buscando diariamente a orientação de Deus, em Suas mãos depondo tudo em fervorosa oração, e trabalhando na sabedoria divina" (Ellen G. White, Medicina e Salvação, p. 244, 245).

Compaixão provada pelo tempo
Frequentemente, a oração assume uma postura egocêntrica. Os cristãos apresentam suas listas de desejos diante de Deus, na esperança de obter o que pedem. Ainda que tenhamos sido orientados a colocar nossas petições diante de Deus, às vezes, nossos motivos não são puros. Afinal, nosso coração não é corrupto, perverso e enganoso? Nossas orações não poderiam, às vezes, simplesmente refletir o pecado que está dentro de nós?

No entanto, a oração de intercessão se concentra nas necessidades de outra pessoa, eliminando assim a possibilidade de motivação egoísta. Ao longo da história, as orações de intercessão representaram as mais