sábado, 7 de abril de 2012

Dois Irmãos, Dois destinos.

O homem de sessenta anos descobriu que estava com HIV, e quase enlouqueceu. Comprou veneno para ratos, tomou uma quantidade expressiva e morreu. Foi o fim de uma história triste, marcada por decisões erradas.

Encontraram o cadáver cinco dias depois. Havia uma nota ao lado, que dizia: “Tive muitas oportunidades de aceitar a Jesus e O rejeitei. Hoje descobri que tenho uma doença fatal. Vou morrer. Apesar disso, sinto que Jesus me chama. Mas para que entregar-Lhe o coração, se a minha vida já não vale nada?”

Esse homem tinha um irmão gêmeo. Ambos tiveram os mesmos pais, receberam a mesma educação, foram instruídos nas mesmas escolas e amados do mesmo modo. Aos catorze anos, um deles aceitou a Jesus e o outro não. O primeiro passou a viver seguindo os conselhos divinos. Constituiu uma família feliz, teve três filhos que hoje são profissionais realizados e Deus lhe deu cinco netos. Aos oitenta anos de idade, ele vê que seus netos são a sua coroa, e seus filhos, a sua glória. A promessa divina é uma realidade na sua experiência.

O irmão gêmeo, porém, teve uma vida e um final diferentes: três matrimônios fracassados, não teve filhos e cometeu suicídio ao descobrir que estava com HIV, como resultado da vida promíscua que vivera. Teve muitas oportunidades para decidir e decidiu errado.

Todos nos aproximamos irremediavelmente da velhice. Na Bíblia, encontramos promessas maravilhosas para aqueles que envelhecem seguindo as instruções divinas. Para estes, cada etapa da vida é especial, e da sua cadeira de balanço, um dia, poderão observar a família que construíram. A morte não os assusta porque têm o coração cheio de esperança.

Hoje é um dia para avaliar o caminho em que você transita. Para onde vai?
Quem orienta os seus passos? É sua vida o desenvolvimento instintivo do impulso e o fruto de seu esforço guiado por padrões limitados a este mundo ou é a obediência aos princípios de vida de um Deus que nunca falha?
Responda para si mesmo e lembre-se:
"Coroa dos velhos são os filhos dos filhos;
e a glória dos filhos são os pais."
Prov. 17:6

Pr. Alejandro Bullón

sexta-feira, 6 de abril de 2012

Linda História para Meditar na Páscoa.


João Griffith, rico industrial inglês, estava assentado, num dia de outono, na sala de visita de sua elegante vivenda. A julgar pela expressão do rosto, seus pensamentos se ocupavam de coisas que lhe causavam uma satisfação íntima.

"A perspectiva, disse ele de si para si, é que as minhas rendas hão-de atingir este ano quinze mil libras esterlinas. Já é uma soma bem regular para quem iniciou sua careira como rapaz pobre. E ainda não sou tão velho. Apenas completei sessenta! Há mais de um nobre no Reino que se daria por satisfeito com as rendas de João Griffith. Minha Catarina vai ter um bonito dote."

Nesse ponto foi ele interrompido por um criado que entrou na sala.

- Sr. Griffith, disse o criado, estão lá embaixo três homens que desejam falar-lhe.

- Três homens?

- Sim, senhor. Não são cavalheiros, acrescentou o criado, que compreendeu a pergunta. Penso que são homens lá do moinho.

- Pois bem, diga-lhes que subam.

Era dia de feriado e as oficinas estavam fechadas, de sorte que os operários estavam de folga.

Ouviu-se na escada um rumor de botas pesadas, e logo depois entraram na sala três homens, cuja aparência revelava que pertenciam à classe condenada a ganhar a subsistência com trabalho árduo e incessante.

- De que se trata, minha gente? perguntou o Sr. Griffith, levantando-se e fixando com interesse os três recém-chegados. São empregados do moinho?

- Sim, senhor, disse o que vinha na frente, Hugh Roberts; sim, Sr. Griffith, somos empregados do moinho e é a esse propósito que vimos ter com o senhor.

- Muito bem, disse João Griffith, retomando o seu assento, digam lá qual é o seu desejo.

É isto, Sr. Griffith, e espero que não se ofenderá com o que temos a dizer-lhe. Vimos humildemente pedir-lhe um aumento de ordenado.

- Aumento de ordenado! exclamou o Sr. Griffith, em tom de desagrado.

- Sim, senhor, espero que não fique ofendido por isso.

- Mas acaso não lhes pago ordenado igual ao que pagam outros moinhos?

- É possível, Sr. Griffith; mas é muito difícil viver-se com três xelins ao dia.

- Mas se eu lhes pagar ordenados maiores do que outros, eles entrarão a fazer-me concorrência no mercado.

- Não sei, senhor, mas penso que trabalharíamos com maior prazer e faríamos mais durante o dia se tivéssemos um pouco mais para viver, de sorte que a mulher e os filhos não necessitassem de estar em perto e de passar fome.

Estas palavras foram ditas num tom varonil e de máxima franqueza, sem nenhuma ênfase; pareciam, porém, não ter feito nenhuma impressão sobre o Sr. Griffith.

- São apenas seis pence mais ao dia o que nós reclamamos, Sr. Griffith, disse Hugh Roberts, suplicantemente.

O Sr. Griffith fez mentalmente o seu cálculo. Tinha trezentos empregados.Um salário adicional de seis pence ao dia por pessoa perfaria um total de duas mil libras ao ano. Esta reflexão endureceu-lhe o coração para com os suplicantes.

- Mas, Sr. Griffith, disse Hugh Roberts, pense no que significa sustentar uma família, com três xelins ao dia.

- É duro, sem dúvida, disse o Sr. Griffith. Não estou, porém, no caso de conceder-lhe o pedido.

- Recusa-nos, então, o aumento?

- Pois não. Se puderem obter mais noutra parte eu de modo algum os impedirei de melhorar sua situação.

- Não temos meios de melhorar a nossa situação, Sr. Griffith, disse Hugh Roberts com amargura, apertando a cabeça entre as mãos. Não temos outro meio de vida, senão trabalhando para o senhor e recebendo o que lhe apraz pagar-nos.

- Pensem bem, minha gente, disse o Sr. Griffith, já melhor humorado por ter conseguido o seu objetivo, e verão que não posso pagar mais do que outros industriais. Não tenho dúvidas de que as mulheres e filhos dos senhores poderão ajudá-los também a ganhar alguma coisa.

Os três homens saíram, tendo a tristeza estampada no rosto, e considerando a vida uma pesada luta que nenhum prazer oferecia.

Apenas eles tinham saído, quando Catarina Griffith entrou na sala.

Tendo nascido quando o pai já alcançara idade relativamente avançada, ela era a pupila de seu olho e a alegria de sua existência. Era por amor dela que ele ambicionava tornar-se rico, a fim de poder arranjar-lhe um partido dos mais nobres, como costumava dizer.

"Eles não hão de reparar na linhagem de Griffith," dizia ele de si para si, "se sua filha apresentar um dote de umas cem mil libras."

Catarina era uma menina de cerca de quinze anos, atraente e de olhos brilhantes, que com razão constituía o orgulho do pai.

- Como vais, minha filha? Disse o pai, sorrindo ternamente.

- Passo sempre bem, disse ela negligentemente; mas, papai, quem eram aqueles homens pobres que encontrei na escada? O senhor ralhou com eles?

- Que te leva a perguntar isso, Catarina?

- Porque eles pareciam tão tristes e desanimados!

- É verdade? Perguntou o Sr. Griffith, com ligeiro interesse.

- Sim, papai, e ouvi a um deles suspirar como se estivesse cansado de viver.

- São empregados do moinho, Catarina.

- E por que estiveram aqui? Para o senhor lhes dar instruções acerca do trabalho?

- Não, isto é lá com o gerente.

- Porque estiveram cá, então?

- És deveras curiosa, minha filha.

- Não é isto o que lhe perguntei, papai, disse a menina, impacientemente.

- Pois, se é preciso que o saibas: eles estiveram aqui para pedir aumento de ordenado.

- E sem dúvida o senhor concedeu o seu pedido.

- Não, minha filha, por que deveria eu conceder-lho?

- Porque eles o necessitam. Quanto eles percebem atualmente?

- Três xelins ao dia.

- Só três xelins ao dia! Exclamou Catarina, e têm de sustentar com isto a família?

- Sim Catarina.

- Oh! papai, como é que o senhor pode pagar um ordenado tão mesquinho?

- Pago-lhes o mesmo ordenado que pagam os outros industriais, disse o pai.

- Mas estes pobres homens não podem viver com três xelins ao dia. Quanto pediram de aumento?

- Seis pence por dia.

- Somente seis pence por dia, e papai lhos recusou? disse Catarina num tom de exprobração.

- Mas considera, minha filha, se eu conceder esse aumento a todos os meus operários, isto importará num aumento de duas mil libras ao ano.

- E quanto mais é a sua renda anual papai?

- Penso que este ano, respondeu o Sr. Griffith orgulhosamente, terei uma renda de perto de quinze mil libras.

- E certamente não gasta tudo isto, papai?

- A minha despesa anual orça por quatro mil libras.

- E o resto?

- O resto eu reservo para a minha Catarina.

- Neste caso, disse Catarina, já que deve ser meu, pague a estes homens um xelim mais ao dia, e ainda há-de restar bastante para mim. Eu não desejaria gozar um dinheiro que foi acumulado à custa de tanta gente pobre. Imagine, papai, quanto benefício este xelim a mais pode fazer a essa pobre gente e quão pouca diferença isto fará para mim! Serei tão rica como desejo ser. Ora vamos, papai, também o senhor foi uma vez pobre. Devia ter compaixão dos pobres.

A estas palavras o Sr. Griffith rememorou as lutas difíceis da sua mocidade, e o egoísmo do seu trato para com esses pobres operários comoveu-o profundamente, de sorte que uniu o seu coração ao da filha.

- É sério o que estás pedindo, Catarina? perguntou o pai.

- Certamente, papai.

- Mas se eu fizer o que me pedes, isto fará uma diferença considerável na tua fortuna.

- Mas eu me sentirei muito feliz, quando pensar que estes homens estão gozando de algum conforto. Quer fazê-lo, papai?

- Sim, Catarina, respondeu o pai; farei conforme me pedes. Os outros industriais hão de pensar que fiquei louco, se, porém, posso agradar a minha Catarina, isto não me importa.

- Eu amo o senhor mais do que nunca, papai! E a menina de coração generoso deitou o braço em redor do pescoço do pai.

Um criado foi enviado à casa de Hugh Roberts a fim de convidá-lo a vir à casa de seu patrão. Ele estava sentado silencioso e dominado por uma raiva surda a um canto de sua mísera choça, cujo aspecto denotava grande privação e desconforto. Não compreendeu o convite, mas entendeu que devia ir receber a sua demissão pela ousadia que tivera em fazer aquela reclamação. Novamente entrou na sala de seu patrão.

- Estive pensando na reclamação que me fez, Hugh Roberts, disse o Sr. Griffith num tom afável, e, embora não creia que algum outro industrial lhe havia de concedê-la, eu contudo me dispus a atender.

- Deus o abençoe, senhor, disse Hugh Roberts, cujo rosto subitamente se iluminou. O Céu lho há-de recompensar. Então, daqui por diante, havemos de perceber três xelins e seis pence ao dia?

- Hão-de perceber quatro xelins.

- Quatro xelins! É sério isto, Sr. Griffith?

- Pois não. O gerente amanhã receberá as minhas instruções.

O operário debulhou em pranto; era, porém, um pranto de alegria.

- Os homens hão-de abençoá-lo, disse ele sorrindo, e estas palavras tiveram um som sumamente agradável nos ouvidos do Sr. Griffith. Uma benção vinda do coração não é para se desprezar.

A experiência demonstrou que os interesses do negócio do Sr. Griffith não sofreram com o aumento do salário de seus operários, porque estes trabalharam daí por diante com melhor vontade.

(Horácio Alger)

quinta-feira, 22 de março de 2012

A Consciência de Pecado nos Salmos de Israel

Os 150 salmos foram todos usados como hinos de louvor cantados pelos coros com acompanhamentos instrumentais no templo de Jerusalém. Muitos deles foram compostos por Davi em sua juventude quando ele ainda era um pastor nos montes da Judeia. Cantando seus hinos como orações, ele usava uma harpa como seu instrumento musical.

Mais tarde, um grande número de canções de David foram incorporadas no culto do Templo oficial como o verdadeiro e legítimo meio de adoração e comunhão com Deus (Nee. 12:24). No cânon da Escritura estas e outras canções foram finalmente aceitas como efetivas e inspiradas orações, exemplares para todos os que adoravam em espírito e em verdade na cidade de Jerusalém.

Uma característica emoção dos salmos bíblicos que fica acima de toda a beleza literária e ascético prazer é o senso de contrição e uma consciência despertada de pecado. Isto relembra a consciência profética dos pecados de Judá e Israel quando contrastados com a revelação da santidade divina e pureza moral. Pecado e santidade são corolários contrastantes. Um profundo senso de um relaciona-se necessariamente com um grande conceito da outra. Contudo, ambas ideias não são tanto conceitos intelectuais ou puramente éticos, como são revelações divinas ao coração e à consciência do adorador que recebe um lampejo da realidade do Deus de Israel.

Compositores como Davi, Asafe o levita, e outros tinham uma experiência pessoal e viva com Deus, a quem adoravam como o Criador do mundo e Redentor de Israel. Salmo 78 e 105-107 revelam um claro conhecimento do Torah de Moisés, lembrando sua mensagem com dramático apelo e fervor religioso.

Os salmos despertavam Israel para a sua única herança, erguendo-o de sua natural apatia e letargia, e estimulam o adorador à renovada experiência do coração para o temor do Senhor. Eles fazem isso exibindo a verdadeira natureza do pecado e culpa de um lado, e de justiça e perfeição de outro lado.

Como podem os poetas do templo religioso cantar sobre a perfeição ou justiça do homem, quando eles têm tão profunda consciência da pecaminosidade humana? Um olhar em dois salmos nos ajudará a responder a esta questão.

Salmo 19

“Quem há que possa discernir as próprias faltas? Absolve-me das que me são ocultas. Também da soberba guarda o teu servo, que ela não me domine; então, serei irrepreensível e ficarei livre de grande transgressão.” (Salmo 19:12-13). Tendo confessado a glória do Criador como brilha de Suas obras da Criação, o salmista continua a reconhecer a maior glória de Yahweh, brilhando de Seu Torah em luz salvadora para o povo do Seu concerto. O Torah era experimentado pelo verdadeiro israelita como uma fonte de alegria redentora, “mais desejáveis do que ouro, … mais doces do que o mel” (v. 10). Isso estimulava o crente à resposta moral de andar com seu santo Deus, escolhendo seu caminho abençoado, e afastar-se da estrada da desobediência.

“Além disso, por eles se admoesta o teu servo; em os guardar, há grande recompensa.” (v. 11). Considerando as reivindicações da Infinita Pureza, Davi compreendeu que nem a Natureza nem o Torah como tal poderiam salvar sua alma no julgamento. Conhecendo os olhos perscrutadores do Senhor que pesa os motivos internos do coração de cada homem (1Crô. 28:9), Davi sentiu a pecaminosidade de seu ser que excedia todo o senso das transgressões cerimoniais ou atos pecaminosos. Ele entendeu o pecado primariamente como uma atitude rebelde e um ato contra Yahweh (Sal. 41:4; 51:4). O verdadeiro discernimento do mal e da compreensão do pecado não era o resultado de reflexões éticas, mas o dom da revelação do santo Deus do concerto. Considerando o seu coração diante de Deus, Davi moveu-se a uma confissão sincera de sua própria impotência moral, orando pela graça perdoadora: “Quem há que possa discernir as próprias faltas? Absolve-me das que me são ocultas.” (Sal. 19:12).

Este longo alcance de consciência de pecado era o característico específico religioso da adoração de Israel. O adorador compreendia diante do seu santo Deus que ele era pecaminoso na essência do seu ser e não podia mesmo determinar um adequado autoconhecimento. Em contraste com toda a filosofia religiosa grega, que sempre começava com a ordem “Conhece-te a ti mesmo!”, a maneira israelita de autoconhecimento começava com o conhecimento de Yahweh, o Doador da vida. “Pois em ti está o manancial da vida; na tua luz, vemos a luz.” (Sal. 36:9). “Sonda-me, ó Deus, e conhece o meu coração, prova-me e conhece os meus pensamentos; vê se há em mim algum caminho mau e guia-me pelo caminho eterno.” (Sal.139:23-24). “Examina-me, Senhor, e prova-me; sonda-me o coração e os pensamentos.” (Sal. 26:2).

O salmista sabia que Yahweh estava pesando os mais profundos motivos e desejos do seu coração em uma balança celestial e que Ele agiria de acordo com ela. “Se eu no coração contemplara a vaidade, o Senhor não me teria ouvido.” (Sal. 68:18). Ele sabia que as observâncias meticulosas de todos os cultos cerimoniais, a guarda dos sábados e festas, o cantar de orações rituais seriam uma demonstração objetável de piedade se a fonte do coração não estava purificada pelo Espírito de Yahweh. “Lava-me completamente da minha iniquidade e purifica-me do meu pecado… Cria em mim, ó Deus, um coração puro e renova dentro de mim um espírito inabalável… Restitui-me a alegria da tua salvação e sustenta-me com um espírito voluntário… Sacrifícios agradáveis a Deus são o espírito quebrantado; coração compungido e contrito, não o desprezarás, ó Deus.” (Sal. 51: 2,10,12,17).

Perdão divino pressupõe uma verdadeira, sincera contrição, sentindo o peso do pecado e uma disposição para obedecer a Deus com alegria. O profeta considera isto como um assunto de vida ou morte: “Vinde, pois, e arrazoemos, diz o SENHOR; ainda que os vossos pecados sejam como a escarlata, eles se tornarão brancos como a neve; ainda que sejam vermelhos como o carmesim, se tornarão como a lã. Se quiserdes e me ouvirdes, comereis o melhor desta terra. Mas, se recusardes e fordes rebeldes, sereis devorados à espada; porque a boca do SENHOR o disse.” (Isa. 1:18-20; ver também Deut. 28:47).

A oração de Davi de súplica em Sal. 19:12 considera o peso do pecado à luz dos olhos de Deus; portanto, ele avalia a graça divina muito altamente. Tendo pedido pela graça perdoadora de Deus, Davi continua orando pela graça mantenedora, pelo poder que restringe os impulsos pecaminosos: “Também da soberba guarda o teu servo, que ela não me domine; então, serei irrepreensível e ficarei livre de grande transgressão.” (Sal. 19:13).

O que são pecados da “soberba”? Eles são distinguidos de faltas escondidas ou inconscientes no verso 12. Estes dois tipos de pecado – de soberba ou inconsciência – são identificados claramente na Lei levítica, particularmente em Núm. 15. O santuário abria o caminho para o perdão sacerdotal dos pecados de ignorância, que são pecados cometidos involuntariamente, sem o pleno conhecimento de seu significado diante de Deus, e após sério arrependimento dele. Arrependimento era o critério decisivo, implicando confissão e o abandono do pecado, como afirmado no livro de Provérbios: “O que encobre as suas transgressões jamais prosperará; mas o que as confessa e deixa alcançará misericórdia.” (Pro. 28:13). Pecados de presunção, consequentemente são todos classificados diferentemente: “Mas a pessoa que fizer alguma coisa atrevidamente, quer seja dos naturais quer dos estrangeiros, injuria ao SENHOR; tal pessoa será eliminada do meio do seu povo, pois desprezou a palavra do SENHOR e violou o seu mandamento; será eliminada essa pessoa, e a sua iniquidade será sobre ela.” (Num. 15:30-31).

Pecado cometido “com a mão levantada” (versão Corrigida) significa não uma queda acidental no pecado, mas uma entrega ao pecado em uma atitude de desafiar a autoridade de Deus. Então, o pecador deliberadamente peca após ter recebido o “pleno conhecimento da verdade” (Heb. 10:26). Consciente e voluntariamente ele despreza a palavra revelada de Deus. Característica desse tipo de pecado é a ausência de qualquer verdadeiro arrependimento, posteriormente quando o pecado é acariciado e justificado.

Números 15: 32-36 apresenta um exemplo deste tipo de atitude pecaminosa. Um homem desafiou o prévio mandamento de Deus para guardar o Sábado do Senhor como um dia de solene repouso. “Portanto, guardareis o sábado, porque é santo para vós outros; aquele que o profanar morrerá; pois qualquer que nele fizer alguma obra será eliminado do meio do seu povo. Seis dias se trabalhará, porém o sétimo dia é o sábado do repouso solene, santo ao SENHOR; qualquer que no dia do sábado fizer alguma obra morrerá.” (Êxo. 31:14-15). Mostrando o seu desprezo pela Lei de Deus, um homem se aventurou em aberta rejeição da vontade revelada de Deus, ajuntando lenha no Sábado. Por veredito divino este homem rebelde devia morrer. Ellen G. White explana isto: “O ato deste homem foi uma violação voluntária e deliberada do quarto mandamento – pecado este não cometido por inadvertência ou ignorância, mas por presunção.” (Patriarcas e Profetas, 409).

O Torah, portanto, define presunção como um desafio à autoridade de Deus, um desprezo da obediência às ordenanças divinas (Deut. 17:12). Não há provisão de expiação ou perdão para tal pecado, desde que então o pecado seria desculpado ou basicamente eternizado (ver 1Sam. 3:14; Isa. 22:14; Jer. 7:16).

Isto não implica em que seres mortais podem determinar quando um pecado de presunção está sendo cometido. Quem pode discernir os motivos do coração de um homem? Jeremias nos lembra: “Enganoso é o coração, mais do que todas as coisas, e desesperadamente corrupto; quem o conhecerá? Eu, o SENHOR, esquadrinho o coração, eu provo os pensamentos; e isto para dar a cada um segundo o seu proceder, segundo o fruto das suas ações.” (Jer. 17:9-10). Sentindo sua grande necessidade do poder salvador e santificador, ele portanto, ora: “Cura-me, SENHOR, e serei curado, salva-me, e serei salvo; porque tu és o meu louvor.” (Jer. 17:14).

Por esta dupla graça Davi orou no Salmo 19: 12-13. Não somente perdão ele procurava, mas uma vida santificada sob a graça prevalecente de Deus. Ele pediu por ambas estas coisas: pelo apagar de sua culpa e a subjugação dos poderes do mal que lutam pelo domínio. Então ele cria, ele seria um servo justo de Yahweh, sua “Rocha e Redentor”. “Então, serei irrepreensível e ficarei livre de grande transgressão.” (Sal. 19:13).

Assim, o Salmo 19 declara que perfeição humana não é o cultivo de alguma inerente bondade na natureza do homem, mas o persistente andar em dependência do perdão e graça mantenedora de Yahweh. Perdão divino restaurou Israel na abençoada e perfeita comunhão com Yahweh. Embora culpa e pecado possam ser distinguidos, o Antigo Testamento nunca separa culpa do ato ou vida de pecado. Consequentemente, perdão também possui uma relação sobre a vida moral. O poder dominante do pecado é quebrado, quando Deus mesmo governa supremo. Esta perfeição é tanto um dom quanto um requerimento do concerto de Deus com Israel.

Um homem pode inadvertidamente cair em um pecado, uma transgressão da Lei do concerto, mas isto não o separa de Deus ou de Seu povo. O serviço do santuário provia reconciliação para o arrependido adorador pelos meios do sangue da expiação sobre o altar (Lev. 4). Não havia perfeição sem expiação cúltica no concerto de Deus com Israel.

Qualquer perfeição moral que uma voluntária obediência a Deus pudesse desenvolver, nunca podia ser relacionada com um sentimento de santidade ou justiça própria. A experiência de um contrito coração e um espírito humilde apenas aumentariam em intensidade se o santo Yahweh habitasse mais e mais no suplicante adorador. “Porque assim diz o Alto, o Sublime, que habita a eternidade, o qual tem o nome de Santo: Habito no alto e santo lugar, mas habito também com o contrito e abatido de espírito, para vivificar o espírito dos abatidos e vivificar o coração dos contritos.” (Isa. 57:15).

Salmo 15

No Salmo 15, nós encontramos de novo perfeição (tamîm). Desta vez é o pré-requisito moral para entrar no templo e desfrutar da proteção e bênção de Yahweh. “Quem, SENHOR, habitará no teu tabernáculo? Quem há de morar no teu santo monte? O que vive com integridade, e pratica a justiça, e, de coração, fala a verdade” (Sal. 15:1, 2).

Soa estranho ouvir que perfeição é o pré-requisito para adoração de Yahweh e recebimento de Sua graciosa comunhão. Não é a perfeição o próprio dom a ser procurado e recebido no santuário? Como então pode a perfeição ser uma condição para a participação da adoração de Israel?

Para achar o próprio escopo do Salmo 15, precisamos buscar a mais ampla perspectiva de todo o Torah. Moralidade não era a base da eleição de Deus a Israel (Deut. 7-9). A grande salvação histórica do Êxodo e o concerto subsequente com Israel no Sinai foram dons reais de Yahweh, dados por Sua graça somente, em fidelidade às promessas de Deus aos patriarcas. O próprio nome do Deus de Israel, Yahweh, denota-O como o gracioso e fiel Deus do concerto.

O Salmo 15, começa com uma questão suplicante: “Quem, SENHOR, habitará no teu tabernáculo?”; portanto, pressupõe imediatamente o concerto da graça expiatória. Tanto a Lei como o Santuário eram dons do concerto de Deus, provendo uma contínua expiação para Israel, a presença permanente do santo amor de Deus. O ministério sacerdotal da graça perdoadora não intentava perdoar a culpa no abstracto. Pelo contrário, ele intentava tirar os pecados, tanto no aspecto da culpa, como em seu real domínio na conduta do homem (ver acima sobre o Sal. 19).

De acordo com isto, era prerrogativa e dever de Israel andar com Deus e com seus semelhantes em uma nova obediência à vontade de Deus. Os poderes divinos da graça redentora, como manifestados na libertação de Israel do Egito, a casa da escravidão, estavam disponíveis a partir daí no serviço sacerdotal do santuário. O propósito da festa anual da Páscoa era para renovar e continuar a redenção graciosa e comunhão do concerto com Yahweh, para dar a Israel uma renovada e vívida participação na salvação histórica do Êxodo. A mesma graça era oferecida por Deus diariamente no santuário. Contudo, era a santa graça que purificava da injustiça e impiedade, transformando o coração do adorador.

“Continua a tua benignidade aos que te conhecem, e a tua justiça, aos retos de coração. Não me calque o pé da insolência, nem me repila a mão dos ímpios.” (Sal. 36:10-11). “Porém eu, pela riqueza da tua misericórdia, entrarei na tua casa e me prostrarei diante do teu santo templo, no teu temor.” (Sal. 5:7).

A ardente santidade e honra de Deus como Rei não poderiam suportar um povo profano e impuro que fosse escravizado pelo pecado ou tivesse o coração dividido. Israel deveria ser uma nação santa, uma luz para os gentios, gloriando-se não em sua sabedoria, riquezas ou poder, mas em seu conhecimento do verdadeiro Deus vivente (Jer. 9:23-24). Era seu santo privilégio andar em voluntária e alegre obediência a Deus, que incluía arrependimento, confissão e restauração.

Este novo coração necessariamente seria manifestado em fazer o que é direito de acordo ao concerto, falando a verdade do coração. Assim, o concerto da graça transformadora provia o poder motivador para uma nova conduta sócio-ética. A participação nas festas anuais é condicionada, diz o Salmo 15, pela aceitação e apropriação da salvação e graça previamente recebidas.
de isenção de pecado ou um sentimento de justiça própria. Como poderia tal emoção mesmo existir em uma profunda convicção de indignidade diante de Deus?

O que o Salmo 15 requer é uma vida social e ética purificada e fiel, como apresentada nos versos 3-5: “O que não difama com sua língua, não faz mal ao próximo, nem lança injúria contra o seu vizinho; o que, a seus olhos, tem por desprezível ao réprobo, mas honra aos que temem ao SENHOR; o que jura com dano próprio e não se retrata; o que não empresta o seu dinheiro com usura, nem aceita suborno contra o inocente. Quem deste modo procede não será jamais abalado.”

Este modo de vida do concerto pela graça de Deus é um perfeito andar, por causa que o coração é purificado e as mãos são limpas (v. 2). Esta mensagem também é comunicada em outro salmo de Davi: “Quem subirá ao monte do SENHOR? Quem há de permanecer no seu santo lugar? O que é limpo de mãos e puro de coração, que não entrega a sua alma à falsidade, nem jura dolosamente. Este obterá do SENHOR a bênção e a justiça do Deus da sua salvação. Tal é a geração dos que o buscam, dos que buscam a face do Deus de Jacó.” (Salmo 24:3-6).

Mais forte do que o Salmo 15 aparenta aqui é o inter-relacionamento indissolúvel da experiência redentora e da vida moral. Aqueles que buscam a Deus em oração, que diariamente O fazem Seu Senhor e Salvador, receberão bênção e vindicação divinas. Toda a vida moral é enraizada e ancorada na graciosa redenção de Deus como recebida no serviço do templo de Israel.